Correr é para todos.Vencer é só para alguns

Claro que nem todas as pessoas que correm podem disputar uma medalha olímpica. Pelo contrário: a elite é composta, como o próprio nome sugere, por poucos atletas que foram agraciados por características físicas especiais – e treinam duro, claro. Se você quer ser um campeão, escolha bem os seus pais.

O sucesso está na sua cabeça

Mas não vencer uma prova não significa que você vai ser um fracassado na corrida. “Sucesso ou fracasso são subjetivos”, garante Fernando Copetti, que coordenou, no Brasil, a adaptação para o português do “Perception of Success Questionnaire (POSQ) ”.

Esse questionário permite que a pessoa identifique quais fatores que, para ela, são sinônimos de sucesso. Nos estudos, foram definidos dois tipos básicos de personalidade:

:: Ego-orientados são as pessoas que se comparam aos outrose só se sentem vitoriosas quando derrotam alguém.

::Tarefa-orientados são aqueles que procuram superação pessoal e se sentem vitoriosos com os seus resultados, independente da performance de outras pessoas.

“Quem sempre se compara aos outros (ego-orientado) é mais propenso ao sofrimento. Quem é orientado pela tarefa geralmente tem mais satisfação e é mais realista com suas próprias capacidades”, conclui Copetti. Isso não quer dizer que um tipo seja melhor que outro, nem que um ego-orientado deva mudar de perfil. “Isso é um traço de personalidade muito difícil de mudar”, diz. Conhecer qual o seu tipo de motivação é fundamental na hora de traçar metas. Um ego-orientado, por exemplo, vai ser mais feliz se correr provas em que possa ter bons resultados, ou seja, nas favorecidas por suas características físicas e funcionais. Um tarefa-orientado vai ter mais satisfação se tiver como metas provas em que possa se superar, portanto é mais provável que se sinta vitorioso mesmo correndo contra seu tipo físico.

Defina suas metas

Agora você já sabe se nasceu ou não para vencer uma corrida, em que tipo de prova seu corpo se daria melhor e o que é importante para você. Chegou a hora de traçar suas metas de treino. Os especialistas dão as dicas:

:: Seja realista
Crie metas possíveis de serem alcançadas. “Uma pessoa que tem o VO2 máximo baixo pode correr uma maratona, mas não deve pensar em vencer. Para fazer a prova em 3 horas ela já tem de ter VO2 máximo bem acima da média”, afirma Oliveira.

:: Corra a favor do seu corpo
O tipo ectomorfo é bom para qualquer corrida. O mesomorfo se dá melhor em provas mais curtas (de velocidade ou até 10km, por exemplo) e o endomorfo, se estiver em boa forma, tem gordura que garante energia para provas mais longas (de 21 km, por exemplo). Mas, se estiver acima do peso, o endomorfo deve investir em provas mais curtas. “Provavelmente um gordinho vai se sentir melhor correndo bem uma prova de 10km do que se acabando para completar uma maratona”, diz Victor Matsudo, médico especializado em medicina do esporte, consultor da Organização Mundial de Saúde.

:: Não exagere
Se você traçar uma meta alta demais, a frustração é certa. “Daí para querer abandonar o esporte é um minuto”, afirma Copetti. O psicólogo Cadu Lefèvre, especialista em psicologia do esporte, fez um estudo sobre superação e constatou que os limites de esforço se alongaram a muito próximo do limite humano. “Nos anos 70, o exemplo máximo de esforço era completar uma maratona. Nos anos 80, um ironman. Nos anos 90, uma corrida da aventura, um ultraman ou uma ultramaratona. Todas as atividades físicas extrapolaram. Hoje qualquer sedentário vislumbra fazer uma maratona. Correr 42km está banalizado, mas as pessoas têm que se lembrar de que é um desafio grande”, diz.

:: Vença você mesmo
Procure sempre parâmetros pessoais de comparação. Uma pessoa ego-orientada corre risco de definir metas que não estão apenas sob seu controle, como ganhar uma prova. “É angustiante quando o seu sucesso depende também do fracasso dos outros”, lembra Copetti.

:: Não facilite demais
Metas muito fáceis não são desafiadoras e perdem o potencial de estimular. “Quase não dá alegria atingir um alvo muito fácil”, diz Copetti.

:: Dê prazos coerentes
“Se você não treina, não adianta resolver em novembro que vai correr a São Silvestre na virada do ano”, exemplifica Gagliardi.

:: Respeite suas limitações
Faça testes para saber se seu coração, seus músculos e seus ossos agüentam a prova que você quer fazer. “A espécie humana foi feita para andar. A corrida é um mecanismo de emergência, para escapar rapidamente em distâncias curtas.Então quem quer correr por esporte tem que procurar orientação e seguir todos os cuidados”, alerta Matsudo.

:: Procure orientação
Correr sem orientação é tão perigoso quanto se automedicar. Um treinador consegue montar um programa compatível com a sua forma física e avaliar quando intensificar ou quando diminuir a carga. Se tiver de correr sem técnico, procure fontes de orientação, como médicos, professores de educação física e revistas especializadas.

:: Procure o prazer
Curta a beleza de fazer o exercício em um padrão bom de esforço e dedicação. Maximize o prazer e a alegria”, estimula Matsudo. Geralmente as pessoas colocam como desafio a distância e não o tempo. “Correr uma maratona é massagem de ego. Qualquer um completa 42km se não houver limite de tempo. Pode até ir andando”, afirma Fábio Rosa. “Acho preferível que a pessoa faça menos e melhor. Quem corre uma ultramaratona deve pensar em fazer uma maratona em menos tempo. Quem corre uma maratona, que tal fazer uma prova de 10km mais rápido?”, sugere. ::

NUTRIÇÃO

De olho na endomorfia: dicas para emagrecer

:: Para quem pratica atividade física, a melhor hora para ingerir calorias é durante o exercício (por meio de suplementos) e até uma hora depois.

:: Prefira alimentos “que nascem no pé”, ou seja, os que não passam pela manipulação do homem, como arroz, feijão, batata, frutas e vegetais.

:: Coma proteínas de origem animal (na proporção de três refeições com peixe ou frango para uma com carne vermelha).

:: Evite bebidas alcoólicas. O álcool tem quase tanta caloria quanto a gordura. Reinaldo Bassit, nutricionista da Total Nutrition.

:: TREINE COM O SEU CORPO

:: Especialistas consultados:

Cadu Lefèvre, psicólogo com especialização em psicologia do esporte.
Camila Hirsh, técnica do grupo Personal Life e pós-graduada em fisiologia do exercício pela Unifesp.
Cláudio Castilho, técnico de atletismo do Clube Pinheiros e presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC).
Fábio Caravieri Rosa, coordenador técnico da MPR Assessoria Esportiva, pós-graduado pelo Centro de Alto Rendimento de Barcelona e consultor técnico da O2.
Fernando Copetti, professor de educação física e vice-diretor do Centro de Educação Física da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM – RS).
Fernando Roberto de Oliveira, professor da Universidade do Estado de Santa Catarina (UESC), doutor pela Universidade de San Sebastian Espanha), especialista em detecção de talentos.
João Fernando Gagliardi, professor de educação física, doutor especialista em desempenho de corredores (USP).
Reinaldo Bassit, preparador físico, doutor em nutrição para o esporte e nutricionista da Total Nutrition.
Rômulo Bertuzzi, professor de educação física da Universidade Ibirapuera e integrante do Laboratório de Desempenho Esportivo da USPLadesp-USP).
Victor Matsudo, médico fisiologista especializado em medicina do esporte, consultor da Organização Mundial de Saúde e coordenador doprograma Agita Mundo.

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