Mitos e verdades sobre o Ácido Lático

acido-latico

Matéria originalmente publicada na edição 51 da Revista SuperAção

 

Quantas vezes já ouvimos falar sobre o ácido lático em diferentes situações de dor e fadiga no exercício? Todos falam dele, ou sobre seus efeitos: atletas, amadores, estudiosos, em todo momento na vida esportiva. Ano passado, a revista New Studies in Athletics publicou interessante artigo sobre o tema, que discutiremos nas próximas colunas.

Sente dor quando exige de você mesmo mais empenho nos exercícios, certo? Seus músculos e estômago doem, sem mencionar o ego. Nesse momento levanta-se a questão de que, se sente dor, algo deve ser o culpado. Nos esportes de resistência, o ácido lático é o causador de toda dor. Você tem cãibras ou contraturas? Ácido lático é o culpado. Ainda nesta linha, por que não culpá-lo por lesões de oversuse, overtraining, calvície, ou até pela baixa no comportamento moral? É amplamente aceito acreditar que o ácido lático é a fonte de todos os desconfortos. Estas hipóteses são apoiadas por alguns cientistas do esporte que não são atualizados ou que não têm coragem de confessar a verdade aos atletas, simplesmente por medo de irem contra a opinião popular. Vamos começar com um fato: em exercícios de alta intensidade, os músculos produzem ácido lático, que aparece no sangue em forma de um sal chamado lactato. Porém, se estudarmos os detalhes de como a energia é produzida no músculo durante esforços de intensidades variadas, descobriremos que o lactato não é responsável pelos desconfortos, como alguns pensam ser.

Culpar o ácido lático pela fadiga muscular satisfaz a lógica simplista que nos comanda a descobrir a razão para cada problema. Quando vamos longe a ponto de culpar alguma coisa por um problema em particular, por que não acusar isso de ser responsável por muitas outras dificuldades? Este pensamento oferece muitas vantagens. Para uns, pode-se evitar ter que calcular a causa de cada problema. Para aqueles que não querem ter o aborrecimento de pensar no processo da fadiga, o ácido lático é o perfeito bode expiatório. Contudo, a realidade é mais complexa.

Na verdade, o conceito de fadiga muscular não existe. Embora os sinais externos pareçam ser os mesmos, a fadiga sentida pelo corredor de 400m não é a mesma que um maratonista sente, que, por sua vez, não é a mesma sentida por um levantador de peso, por exemplo. Seria inocente pensar que o ácido lático é o único vilão responsável por estas variadas formas de fadiga muscular.

Encontramos entre os neurônios cerebrais (que enviam os comandos motores) e os miofilamentos musculares (que levam a cabo estes comandos) vários links na informação da corrente de transmissão que permitem a contração muscular. Alguns deles podem falhar nestas tarefas e bloquear a continuidade da contração. Assim, esses links aparecem em uma longa lista de possibilidades suspeitas no desenvolvimento de diferentes tipos de fadiga. Essa lista pode, em alguns casos, incluir o ácido lático. Entretanto, ele não é o único e nem mesmo o principal culpado.

Muitos estudos mostraram que o ácido lático é perifericamente responsável pela fadiga muscular. Como alguns desses argumentos são complexos, não serão discutidos aqui; apenas mostraremos que a maioria das recentes revisões aponta para a conclusão que “O desequilíbrio do ácido-base no músculo esquelético não é um fator crítico como é algumas vezes sugerido” (FITTS, 1996; JONES et al., 2003; PÉRONNET and THIBAULT, 2005, ROGBERGS et al., 2004; SCHWANE et al., 1983).

“Cãibras musculares são causadas pela presença do ácido lático no músculo.” Uma cãibra não é resultado do acúmulo de ácido lático. É claro que alguns estudiosos podem observar a ocorrência desse problema em altas concentrações de lactato, porém, o lactato muscular pode ser elevado sem a ocorrência de cãibras. Este é o caso da corrida de 400m, em que todos os corredores terminam com uma concentração de lactato sangüíneo 20 ou 25 vezes maior que os níveis de descanso, e as cãibras são raras. Ao contrário, algumas pessoas sofrem de cãibras enquanto dormem, quando a concentração de lactato sangüíneo, bem como a do nível de esforço, é baixa. Na maioria dos casos, ocorrem durante esforços extremos de longa duração, como em uma sessão de treinamento longa. Em tais condições, a concentração de lactato é claramente mais alta que no descanso, mas, muito abaixo dos níveis máximos observados durante esforços intensos e curtos. Entretanto, não se pode culpar o acúmulo de ácido lático pela ocorrência de cãibras, considerando a hiperexcitablidade do tecido muscular. Podemos também considerar o caso das pessoas com a doença de McArdle’s. Eles não podem produzir ou acumular ácido lático. Entretanto, elas sofrem cãibras. Este é um avançado argumento confirmando que o ácido lático não está relacionado com esse tipo de ocorrência.

Um importante argumento neste debate em que coloca o ácido lático em posições opostas (culpado ou inocente?) é que, por um lado, é possível observar fadiga muscular enquanto a concentração de ácido lático no músculo se mantém baixa e, por outro, pode-se observar ausência de fadiga quando sua concentração no músculo é alta. Por exemplo, ao final de uma corrida de 100km, uma prova com demandas específicas, o nível de fadiga é alto, mas a concentração de lactato sangüíneo é pouco acima do estado de repouso. Além disso, pessoas que sofrem da doença de McArdle’s são incapazes de produzir (e assim acumular) ácido lático e são propensas a sofrer de fadiga muscular. Assim, a fadiga muscular pode estar acompanhada por um baixo nível de ácido lático, ou até mesmo sem a presença do mesmo.

Analisando outro aspecto, se um esforço isométrico é realizado na musculatura dos quadríceps até a exaustão (por exemplo, o ‘exercício da cadeira’: costas contra a parede), a fadiga reduz a força temporariamente. Entretanto, essa fadiga rapidamente desaparece e é eliminada quase que totalmente após 2 minutos de recuperação. Após este período, o músculo poderá novamente produzir a potência inicial. Quando observamos o grau de acidose no músculo, notamos que está aumentado consideravelmente durante a contração isométrica. Com isso, pode-se sugerir a hipótese que afirma que o ácido lático é responsável pela fadiga. Contudo, durante o período de recuperação, o grau de acidose no músculo retorna lentamente ao normal. Conseqüentemente, 2 minutos após a conclusão do exercício, o grau de acidose permanece muito alto, porém, desde que o músculo possa novamente produzir sua força inicial, a fadiga é eliminada. Por essa razão, é difícil abraçar a idéia de que o aumento do ácido lático no músculo causa fadiga, uma vez que pode ser observado um alto grau de acidose sem fadiga.

“A presença de ácido lático no músculo causa rigidez e dores musculares.” DOMS (Delayed onset muscle soreness) é a sigla usada para identificar aquelas dores que aparecem um dia ou dois após um esforço intenso não familiar. Esse tipo de dor ocorre principalmente quando o exercício requer contrações musculares excêntricas (contrações enquanto os músculos estão se alongando, absorvendo o impacto de uma queda com carga). Essas dores musculares não se relacionam com a presença de ácido lático nos músculos. Algumas vezes, o ácido lático é acompanhado por dores musculares, mas é também possível vir acompanhado sem dor muscular e vice-versa. Estudos em laboratórios fornecem evidências que confirmam isto. Em um determinado estudo, os sujeitos corriam por dois testes intervalados (9 x 5 min a 7,5 mph, com 2 min. de recuperação): no primeiro, sem inclinação e, no segundo, com inclinação de 10% na descida. A corrida plana (alta concentração de lactato) não gerou dores musculares. Em contraste, no dia seguinte após o teste da corrida em descida (baixa concentração de lactato) os sujeitos sofreram dores musculares severas (SCHWANE et al., 1983). Esse processo é muito bem conhecido por pessoas que correm por percursos acidentados, com subidas e descidas: correr no plano e em subida não causa rigidez muscular, mas correr na descida sim, por conta do número elevado de contrações excêntricas. Isso causa maior prejuízo à musculatura porque, o número de fibras musculares solicitadas para produzir a contração de uma específica tensão é 4 a 8 vezes maior para uma contração excêntrica como oposição a uma contração concêntrica. A tensão pela qual cada fibra é submetida é muito elevada e é essa a causa dos microtraumas e as inflamações. Essa é uma inteligente demonstração que o ácido lático não é responsável pelas dores musculares.

Resumindo: os diversos tipos de fadiga experimentados pelos corredores dependem de uma combinação de causas e de um tipo de esforço. Porém, nada prova que o ácido lático ou o lactato são os únicos causadores de fadiga, nem mesmo uma das maiores causas de alguma dessas formas de fadiga.

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Por Ricardo D’Angelo, treinador de atletismo do Clube BM&F.

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